Qualquer procedimento cirúrgico envolve, por menor que seja, um grau de incerteza quanto ao seu desfecho. Essa incerteza tem nome: risco cirúrgico. Trata-se de um conceito central na medicina perioperatória — o conjunto de cuidados que envolvem o período antes, durante e após uma cirurgia — e compreendê-lo é fundamental tanto para médicos quanto para pacientes e familiares.
Neste artigo, você vai entender o que significa risco cirúrgico, como os médicos realizam essa avaliação, quais fatores influenciam o resultado e de que forma essa análise contribui para a segurança do paciente durante o procedimento.
O que é risco cirúrgico
O risco cirúrgico é a probabilidade de que um paciente sofra complicações — sejam elas cardiovasculares, respiratórias, infecciosas, metabólicas ou outras — durante ou após uma cirurgia. Ele não é uma sentença, mas sim uma estimativa baseada em dados clínicos objetivos, que orienta a equipe médica a tomar as melhores decisões antes, durante e depois do procedimento.
Essa avaliação não significa que o médico está prevendo um desfecho negativo. Pelo contrário: quanto mais detalhada e criteriosa for a análise do risco, maiores são as chances de o paciente passar pela cirurgia com segurança.
É importante destacar que o risco cirúrgico é sempre relativo. Ele depende tanto do estado de saúde do paciente quanto do tipo de cirurgia a ser realizada. Uma pessoa jovem e saudável submetida a uma cirurgia eletiva de pequeno porte tem um perfil muito diferente de um idoso com múltiplas comorbidades que precisa de uma cirurgia abdominal de urgência.

Por que a avaliação de risco cirúrgico é necessária
A medicina moderna segue um princípio fundamental: o benefício esperado de qualquer intervenção deve superar os riscos que ela impõe. Para garantir que esse equilíbrio seja mantido, a avaliação pré-operatória existe como uma etapa estruturada e obrigatória em praticamente todas as cirurgias eletivas.
Segundo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a avaliação cardiovascular pré-operatória é especialmente relevante porque as complicações cardíacas figuram entre as principais causas de morbidade e mortalidade cirúrgica no mundo. Isso significa que o coração precisa ser cuidadosamente avaliado antes de qualquer procedimento de médio ou grande porte.
Os objetivos centrais dessa avaliação são:
- Identificar doenças preexistentes que possam aumentar o risco do procedimento
- Otimizar o estado clínico do paciente antes da cirurgia
- Definir o tipo de monitorização necessária durante o procedimento
- Orientar a equipe de anestesia sobre as particularidades do paciente
- Informar o paciente e seus familiares de forma clara e responsável
Quem realiza a avaliação pré-operatória
A avaliação de risco cirúrgico é uma consulta médica especializada, geralmente conduzida pelo cardiologista ou pelo médico da especialidade envolvida, a depender do perfil do paciente e do tipo de cirurgia.
Quando o paciente possui histórico de doenças cardiovasculares — como hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, arritmias, infarto prévio ou doença arterial coronariana — a participação do cardiologista é essencial. Ele vai avaliar se o coração está em condições seguras para suportar o estresse fisiológico imposto pela cirurgia e pela anestesia.
Em alguns casos, outros especialistas também podem ser consultados: pneumologista (em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica ou apneia do sono), endocrinologista (em diabéticos ou pacientes com disfunção tireoideana) e nefrologista (em pacientes com insuficiência renal).
A consulta pré-anestésica, realizada pelo anestesiologista, é uma etapa complementar igualmente obrigatória. Nela, são avaliadas questões relacionadas à via aérea, ao tipo de anestesia mais adequado e ao histórico de reações a medicamentos.
Fatores que influenciam o risco cirúrgico
O risco cirúrgico resulta da combinação entre dois grandes grupos de variáveis: fatores relacionados ao paciente e fatores relacionados à cirurgia.
Fatores relacionados ao paciente
- Idade: pacientes idosos apresentam menor reserva fisiológica, o que eleva o risco de complicações
- Doenças cardiovasculares: hipertensão mal controlada, insuficiência cardíaca, angina instável e infarto recente são marcadores de risco elevado
- Diabetes mellitus: pode comprometer a cicatrização e aumentar o risco de infecção e eventos cardiovasculares
- Obesidade: associada a risco aumentado de complicações respiratórias, tromboembólicas e de cicatrização
- Tabagismo: prejudica a função pulmonar e o suprimento de oxigênio aos tecidos
- Uso de medicamentos: anticoagulantes, antiplaquetários, anti-inflamatórios e outros podem exigir ajustes antes da cirurgia
- Estado nutricional: a desnutrição compromete a imunidade e a recuperação pós-operatória
Fatores relacionados à cirurgia
- Porte do procedimento: cirurgias de grande porte (torácicas, abdominais maiores, vasculares) impõem maior estresse ao organismo
- Urgência ou eletividade: cirurgias de emergência têm risco significativamente maior do que procedimentos eletivos
- Duração prevista: procedimentos mais longos prolongam a exposição à anestesia e ao estresse fisiológico
- Localização anatômica: cirurgias intratorácicas e intracavitárias tendem a apresentar maior risco cardiopulmonar
- Tipo de anestesia: anestesia geral costuma ser mais impactante do que técnicas regionais, dependendo do perfil do paciente

Como é classificado o risco cirúrgico (atualizado conforme SBC 2024)
Existem diferentes ferramentas e sistemas de classificação utilizados para estratificar o risco cirúrgico. Nos últimos anos, importantes atualizações foram publicadas pelas principais sociedades médicas — incluindo a Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) de 2024 —, trazendo mudanças relevantes na forma como esse risco é comunicado e calculado.
Classificação da ASA (American Society of Anesthesiologists)
A classificação ASA avalia o estado físico geral do paciente e é amplamente utilizada pela equipe de anestesiologia. Divide os pacientes em seis categorias:
Classificação ASA — Estado Físico do Paciente
| Classe ASA | Descrição | Exemplos |
| ASA I | Paciente saudável | Adulto jovem sem comorbidades |
| ASA II | Doença sistêmica leve | Hipertensão controlada, diabetes bem compensado |
| ASA III | Doença sistêmica grave | ICC estável, DPOC moderada, obesidade mórbida |
| ASA IV | Doença sistêmica grave com risco de vida | ICC descompensada, insuficiência renal grave |
| ASA V | Paciente moribundo | Ruptura de aneurisma, politrauma grave |
| ASA VI | Morte encefálica para doação de órgãos | — |
Nova Classificação Semi-Quantitativa — SBC 2024 (atualização)
A Diretriz SBC 2024 introduziu uma mudança importante: abandonou os valores percentuais absolutos de risco — que variam muito entre diferentes populações — em favor de uma classificação semi-quantitativa, dividida em quatro classes com correspondência qualitativa clara.
“Os autores da nova edição desta Diretriz optaram por uma classificação semi-quantitativa, estabelecendo como risco baixo (Classes I e II), intermediário (Classe III) e alto (Classe IV) nos relatórios de avaliação de risco pré-operatório, não especificando valores absolutos.” — SBC, 2024
Classificação Semi-Quantitativa de Risco Cirúrgico — SBC 2024
| Classe SBC 2024 | Nível de Risco | Interpretação Clínica |
| Classe I | Baixo | Procedimento com mínima probabilidade de eventos cardiovasculares maiores (MACE) |
| Classe II | Baixo | Risco presente, mas clinicamente bem controlado |
| Classe III | Intermediário | Risco moderado — pode exigir investigação complementar ou otimização pré-operatória |
| Classe IV | Alto | Risco elevado de eventos graves — exige avaliação cardiológica detalhada e, em alguns casos, reavaliação da indicação cirúrgica |
Risco intrínseco por tipo de procedimento — ESC 2022 / SBC 2024
Além do perfil clínico do paciente, a classificação considera o risco inerente ao tipo de cirurgia, independentemente das comorbidades:
Risco Intrínseco por Tipo de Procedimento — ESC 2022 / SBC 2024
| Categoria de Risco | Estimativa de MACE em 30 dias | Exemplos de Procedimentos |
| Baixo Risco | Menos de 1% | Cirurgias de mama, tireoide, oftalmológicas, dentárias, ginecologia menor, ortopedia menor (ex: menisco), procedimentos superficiais |
| Risco Intermediário | Entre 1% e 5% | Angioplastia periférica, endarterectomía de carótida asintomática, colecistectomía laparoscópica, hérnia hiatal, cirurgias de cabeça e pescoço, transplante renal |
| Alto Risco | Acima de 5% | Cirurgia vascular maior (aorta, amputação), esofagectomia, pneumectomia, transplante hepático ou pulmonar, cistectomia total, cirurgias de emergência abdominal |
Nota editorial: A SBC 2024 optou por não fixar valores percentuais absolutos em sua classificação final, por entender que esses números variam entre populações. As estimativas acima (baseadas na ESC 2022) são mantidas para fins didáticos, pois ajudam o leitor leigo a compreender a magnitude do risco de forma concreta.
Índice de Lee — RCRI (Revised Cardiac Risk Index)
O Índice de Lee permanece como ferramenta padrão para triagem inicial do risco cardiovascular, considerando seis variáveis:
- Cirurgia de alto risco (intratorácica, intraperitoneal ou suprainguinal)
- Doença arterial coronariana preexistente
- Insuficiência cardíaca congestiva
- Doença cerebrovascular (AVC ou AIT prévio)
- Diabetes mellitus dependente de insulina
- Creatinina sérica > 2,0 mg/dL
Cada fator presente soma um ponto. Com dois ou mais pontos, o paciente é considerado de risco cardiovascular elevado.
Escore AUB-HAS2 — novidade da SBC 2024
Uma das principais inovações da Diretriz SBC 2024 é a recomendação do escore AUB-HAS2 como ferramenta preferencial em dois perfis específicos de pacientes:
- Idosos acima de 75 anos
- Candidatos a cirurgias vasculares
Nesses grupos, o RCRI tende a subestimar o risco real, enquanto o AUB-HAS2 demonstrou maior acurácia preditiva em estudos de validação. A variável idade acima de 75 anos é considerada de forma independente nesse escore, o que o torna mais sensível para a população geriátrica.
Avaliação de capacidade funcional e fragilidade — obrigatória pela SBC 2024
Outro avanço significativo da nova diretriz é a elevação da avaliação de fragilidade ao status de recomendação Classe IIa para pacientes idosos submetidos a cirurgias de risco intermediário ou alto. Essa etapa deixou de ser opcional.
Os parâmetros avaliados incluem:
- Capacidade funcional: pacientes incapazes de subir dois lances de escada ou com DASI abaixo de 34 são classificados como de baixa capacidade funcional — o que pode indicar a necessidade de testes de estresse farmacológico antes da cirurgia.
- Fragilidade: avaliada por ferramentas validadas como a Clinical Frailty Scale (CFS) ou o Fried Frailty Phenotype, a fragilidade é reconhecida como preditor independente de mortalidade e complicações perioperatórias.
Exames solicitados na avaliação pré-operatória
A solicitação de exames deve ser individualizada — ou seja, não existe um protocolo único válido para todos os pacientes. Os exames são escolhidos com base nas características clínicas de cada pessoa e no tipo de cirurgia planejada.
De forma geral, os exames mais frequentemente solicitados incluem:
- Hemograma completo: avalia anemia, infecções e plaquetas
- Glicemia e HbA1c: controle glicêmico, especialmente em diabéticos
- Função renal (ureia e creatinina): avalia necessidade de ajuste de medicamentos e risco de lesão renal perioperatória
- Coagulograma: avalia o sistema de coagulação, especialmente em uso de anticoagulantes
- Eletrocardiograma (ECG): fundamental em pacientes acima de 40 anos ou com fatores de risco cardiovascular
- Radiografia de tórax: em pacientes com doença cardiopulmonar ou indicação clínica
- Ecocardiograma: indicado quando há suspeita de doença estrutural cardíaca ou comprometimento da função ventricular
- Teste ergométrico ou cintilografia miocárdica: em pacientes selecionados com risco cardíaco intermediário a alto e baixa capacidade funcional

Como o risco cirúrgico pode ser reduzido
A identificação do risco cirúrgico não é o fim do processo — é o início de uma série de intervenções que visam minimizar as chances de complicações. Quando fatores de risco modificáveis são identificados, a equipe médica pode atuar antes da cirurgia para melhorar o estado do paciente.
Algumas estratégias comumente adotadas incluem:
- Otimização do controle da pressão arterial antes do procedimento
- Compensação do diabetes, com ajuste da insulinoterapia ou dos hipoglicemiantes orais
- Cessação do tabagismo pelo menos oito semanas antes da cirurgia, quando possível
- Reabilitação pré-operatória (pré-habilitação) em pacientes com baixa capacidade funcional, incluindo exercícios físicos supervisionados e suporte nutricional
- Ajuste ou suspensão de medicamentos de risco, como anticoagulantes e anti-inflamatórios, conforme orientação médica
- Tratamento de anemia pré-operatória para reduzir a necessidade de transfusão sanguínea
Em situações específicas, o cardiologista pode recomendar a realização de um procedimento intervencionista (como uma angioplastia coronariana) antes de uma cirurgia eletiva de grande porte, caso seja identificada doença coronariana significativa e não tratada.
O papel do paciente na avaliação de risco cirúrgico
Frequentemente subestimado, o papel ativo do paciente é um dos pilares da segurança perioperatória. Uma consulta pré-operatória bem-sucedida depende, em grande parte, das informações fornecidas pelo próprio paciente à equipe médica.
É fundamental que o paciente informe ao médico:
- Todas as doenças diagnosticadas, mesmo que pareçam sem relação com a cirurgia
- Todos os medicamentos em uso, incluindo suplementos, fitoterápicos e vitaminas
- Histórico de reações alérgicas a medicamentos ou a materiais (como látex)
- Histórico familiar de complicações com anestesia
- Hábitos de vida: tabagismo, consumo de álcool, prática de atividade física
- Cirurgias anteriores e eventuais complicações
Essa troca de informações é a base para que a equipe médica elabore um plano perioperatório seguro e personalizado.

Conclusão
O risco cirúrgico é um conceito essencial para qualquer pessoa que esteja se preparando para um procedimento cirúrgico. Compreendê-lo significa entender que a avaliação pré-operatória não é uma burocracia médica, mas sim uma etapa de cuidado que protege a vida do paciente.
Quanto mais detalhada for a análise das condições clínicas do paciente — especialmente no que diz respeito à saúde cardiovascular —, maiores são as chances de que a cirurgia transcorra com segurança e que a recuperação seja satisfatória.
Se você ou um familiar está diante de uma cirurgia programada, procure agendar com antecedência a consulta de avaliação pré-operatória com o seu médico. Leve todos os exames anteriores, a lista de medicamentos em uso e relate seu histórico de saúde da forma mais completa possível. Essa atitude simples pode fazer uma diferença significativa na segurança do procedimento.
Procure sempre orientação de um médico habilitado para discutir o seu caso de forma individualizada.
FAQ — Perguntas frequentes sobre risco cirúrgico
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Todo paciente precisa de avaliação de risco cirúrgico antes de uma cirurgia?
Em cirurgias eletivas, sim. A avaliação pré-operatória é recomendada para praticamente todos os pacientes submetidos a procedimentos de médio e grande porte. Em cirurgias de urgência ou emergência, a equipe realiza uma avaliação rápida, mas o procedimento não pode ser postergado para aguardar exames eletivos.
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O cardiologista pode reprovar um paciente para cirurgia?
O cardiologista não “reprova” — ele estratifica o risco e emite um parecer. Em casos de risco muito elevado, pode recomendar o adiamento do procedimento para que as condições clínicas sejam otimizadas primeiro. A decisão final é sempre compartilhada entre a equipe cirúrgica, o anestesiologista, o cardiologista e o paciente.
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Quanto tempo antes da cirurgia devo fazer a avaliação de risco cirúrgico?
O ideal é que a avaliação seja realizada com pelo menos 30 dias de antecedência em cirurgias eletivas, para que haja tempo suficiente para solicitar exames complementares, ajustar medicação e consultar outros especialistas, se necessário.
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A classificação ASA determina se a cirurgia vai ou não acontecer?
Não diretamente. A classificação ASA é uma ferramenta de comunicação entre profissionais de saúde sobre o estado físico do paciente. Ela orienta o planejamento anestésico e cirúrgico, mas não é, por si só, um critério de contraindicação absoluta.
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Pacientes com marca-passo ou stent coronariano podem fazer cirurgias?
Sim, desde que sejam tomadas precauções específicas. Pacientes com marca-passo precisam de avaliação cardiológica detalhada e, em alguns casos, de reprogramação do dispositivo. Já os portadores de stent coronariano recente precisam de avaliação criteriosa quanto ao uso de antiagregantes plaquetários, pois a suspensão dessas medicações pode aumentar o risco de trombose do stent.